Aqui o Banco de Crédito se apresenta e explica como tudo começou… e agradece:

Meu nome é Johannes Burr, sou, por assim dizer, a pessoa que está por trás do Banco de Crédito, ou seja, o idealizador do Projeto de Crédito e quem criou e equipou a Mala de Crédito.
Como o primeiro Credor dentro deste projeto, também faço parte de uma longa cadeia de outros Credores e Beneficiados. Esta cadeia se iniciou antes de mim, em algum momento e em algum lugar com alguém que eu não conheço e que continuará depois de mim. Pois também eu, simultaneamente como banco de crédito, sou um tomador de crédito; tomo – no sentido do latim ‘credere’ (acreditar, confiar) – a confiança de outras pessoas para, de fato, poder colocar algo no mundo por conta própria. Sem dinheiro, nada acontece, como diz o ditado… E de antemão, o melhor dinheiro é, naturalmente, não o que foi emprestado, ou seja, o crédito, mas o que foi presenteado. Isso também desempenhou um papel importante neste projeto. Mas, sobre isso falaremos mais depois.
Como alguém se torna um Banco de Crédito? Como você pode se colocar na posição de poder oferecer algo interessante e “valioso” a outras pessoas, o que também potencialmente os coloca na mesma posição que você? Como colocar em movimento um efeito criativo como uma de bola de neve – não apenas para si próprio, mas também para os outros que também estão por vir?
Sem dúvida, há muitas maneiras de chegar lá. De minha parte, farei um breve relato sobre minha experiência aqui:
Eu estudei Arte. Costuma-se dizer que você só se torna um artista depois de ter estudado Arte. E é por isso que agora sou um “Artista” e faço “Arte”, o que quer que isso signifique. E não aprendi mais nada além disso. Na verdade, não aprendi nada.
E tudo se resumiu a isso: o que você faz quando tem vinte e poucos anos, não sabe o que quer e mais do que isto, estando em uma assim chamada “universidade livre” para descobrir que o curso que escolheu e o local onde irá estudar pode ser tudo menos “livre”? Era a época dos protestos estudantis no início dos anos 90, as pessoas saíram nas ruas e ocuparam o parlamento estadual de Berlim, entre outras coisas contra as mensalidades dos estudos e por mais autonomia com relação ao estudo e ao ensino. E, finalmente, juntamente com os outros, eu também queria ser capaz de redefinir e redesenhar novos conteúdos e formas de estudo. Após a queda do Muro de Berlim, houve algo como uma grande promessa de mudança e um novo começo em Berlim, uma abertura tentadora no ar. No entanto, como muitos outros, na minha inexperiência, eu não esperava encontrar um ambiente acadêmico fechado, com suas tradições de pensamentos rígidos, nada acolhedor em um lugar que se chamava “universidade livre”… Então, o que fazer?
Um caminho possível parecia ser o que a Academia de Arte oferecia: Arte Livre!
Uma vez dentro da Academia, dizia-se, poder-se-ia fazer o que se quisesse. Arte livre mesmo!
No entanto, as inconsistências começaram também aqui, com os exames de admissão. Um professor queria ver apenas desenhos lineares de nus, o outro, por outro lado, tanto quanto possível, uma linha desordenada à la Giacometti…. Parecia mais uma espécie de jogo de roleta sobre o gosto pela arte da respectiva banca de avaliação…
De alguma forma, porém, tive sorte. E uma vez que se está dentro, poder-se-ia realmente fazer quase tudo, ou quase nada. Ou melhor: Nada – escrito em letra maiúscula, um grande, chamativo, agitado e importante Nada. Um verdadeiro ponto de interrogação. E assim eu também comecei a fazer “Nada”, produzindo muitos “Nadas”, cada vez mais pontos de interrogação, mesmo depois dos meus estudos. A transição da Academia de Arte para o sistema de Arte é fluídica sempre em busca de dinheiro, para que se possa produzir mais “Nadas”. Porque sem dinheiro, o “Nada” também não é possível.
Em algum momento, no final dos meus estudos de Arte, percebi que ainda não sabia o que este “Nada” significava e como se podia não apenas fazer “Nada”, mas também se tornar o mais bem-sucedido financeiramente com isso. Então, tive uma ideia: por que não fazer um filme sobre dinheiro sem ter dinheiro, que faria com que eu ganhasse muito dinheiro?
Então, com base neste questionamento, criei um pequeno roteiro sobre um banqueiro que desaparece misteriosamente um dia ao cair de uma janela e a partir deste fato, acaba fazendo algumas descobertas interessantes.
Uma segunda tentativa, seguindo o mesmo questionamento, foi a produção do curta-metragem Empédocles em Berlim que conta a história de um músico desempregado que atravessa Berlim, perambulando como uma espécie de moeda “viva”, aparentemente ligando aleatoriamente histórias e pessoas e colecionando pedras em seu estojo de violoncelo vazio. No entanto, nenhum desses projetos rendeu dinheiro…
Na verdade, tratava-se de outra coisa. Ou seja, como fazer “Arte” sem ter que se preocupar simultaneamente com a pergunta sobre a questão do “dinheiro”: o que é dinheiro? O dinheiro talvez não tenha muito mais a ver com a questão do processo criativo do que pode parecer à primeira vista? Pode ser que o nosso foco em “ganhar a vida” e “ganhar dinheiro” talvez obscureça a nossa compreensão de perguntas mais importantes, a saber: como o dinheiro é gerado e qual é a sua natureza?

Muito já se escreveu sobre o dinheiro. Então eu li livros, assisti a documentários. E perguntei a muitas pessoas. Desta minha busca pude reunir diferentes opiniões e pontos de vista. Mas uma coisa emergiu gradualmente, uma descoberta surpreendente:
Aparentemente, o dinheiro assim como a Arte, são criados do nada, são em si um “Nada positivo”, – do nada surge o Nada… Portanto, os banqueiros falam de dinheiro fiduciário porque é criado do nada assim como, na Bíblia, Deus criou o mundo do nada: Fiat lux – Haja luz! E houve luz…
Não havia nada; através do ato criativo tornou-se um nada; um nada positivo, um embrião, germe de uma coisa. E permeado pela luz, começa a se formar, a se moldar, até que a formação da luz aparece.
Da mesma forma, o banco – geralmente um banco central – cria dinheiro do nada em um ato legal. Por meio de um simples truque de contabilidade, o dinheiro nasce na forma de uma contrapartida débito-crédito. O débito permanece na contabilidade do banco como uma dívida. E o crédito, no entanto, sai para o mundo na forma de um certificado de habilitação à procura de pessoas talentosas que queiram criar algo novo para o qual haja uma necessidade na sociedade. O crédito, desta maneira, se torna a base para esta criação produtiva. É assim que o dinheiro entra em circulação.
Uma vez circulando pela economia, no entanto, o dinheiro aparentemente muda de perfil: não é mais dinheiro de crédito que representa uma dívida inicial, mas passa a ser um dinheiro de troca para uso comercial. Sendo assim, possibilita uma transação de troca: uma pessoa pode comprar algo com ele, a outra quer vender algo em troca e, dessa forma, ambas – idealmente para benefício mútuo – participam da transação… Em última análise, no entanto, o dinheiro da troca sempre envia um sinal de volta ao ciclo econômico, incentivando novamente a reprodução daquilo que foi comprado. Somente dessa forma, por intermediação do dinheiro de troca, é possível que o negócio se realize no encontro da demanda com a oferta em um contexto social de divisão de trabalho. E assim o dinheiro consegue regular e coordernar, de forma significativa, o equilibrio entre demanda e oferta por meio da precificação. Por um lado, o dinheiro nos permite atender às nossas necessidades como consumidores em troca mútua e, por outro lado, nos permite desenvolver nossas habilidades como produtores e implementá-las em um processo produtivo em relação às necessidades dos outros.
Então, depois de tal descoberta, surgiu a seguinte pergunta para mim: por que não simplesmente mudar de lado e me tornar um banqueiro? Por que sempre, como artista necessitado, correr atrás de dinheiro para a realização de seus próprios projetos “triviais” , em vez de simplesmente criar e distribuir dinheiro como um banqueiro e, assim, permitir que outros também possam criar o máximo possível de “Nada positivo”?
Qualquer um pode ser um banqueiro. Pois, se tanto a arte como o dinheiro são criados a partir do nada como um “Nada positivo”, então devem ser algo muito semelhante em natureza, senão idêntico, na medida em que ambos se referem às nossas habilidades criativas, ao nosso potencial criativo: o dinheiro como crédito possibilita o desenvolvimento e a manifestação de habilidades. Em sua função como meio de troca, o dinheiro nos conecta e cria um equilíbrio entre dependência e necessidade, por um lado, e criatividade e produtividade, por outro. E a Arte é o resultado, ou mais precisamente, o próprio processo de criação e materialização. Cada um de nós tem habilidades e potenciais, no entanto, geralmente, o que nos falta é o dinheiro. Então, por que não transformar em arte o próprio processo de criação de dinheiro e as relações monetárias?
Foi assim que surgiu a ideia do Projeto de Crédito. Entre 2006 e 2012, viajei pelo mundo como um banco de crédito móvel com a Mala de Crédito, sempre em busca de um novo beneficiário. Encontrar alguém, nem sempre foi fácil. Pois nem todos queriam esse crédito, porque significava assumir uma responsabilidade pelo projeto (e em troca, eu me livraria dessa responsabilidade – pelo menos por um tempo)! Mas ao final, sempre aparecia alguém disposto a receber a mala e assumir o crédito. Desta maneira, em seis anos, um total de sete FilmesEmRede foram produzidos em lugares diferentes.

No entanto, dentro da legislação em vigor, não é possível para mim – mesmo com toda a liberdade artística que tenho – simplesmente criar, como banco de crédito, meu próprio dinheiro. Mas, como eu consegui, então, adquirir a Mala de Crédito, a filmadora, o tripé e tudo mais? Como eu consegui me manter ao longo dos anos, viajando até os participantes do projeto, comprando comida para nós, tendo um teto para dormir e uma cama, sem ter que mendigar pelas ruas?
Isso nos leva a outra pergunta, a uma última questão importante:
O que realmente acontece com o débito que ficou como uma dívida na contabilidade do banco? Como o dinheiro encontra o caminho de volta ao início de seu ciclo? Como a dívida podia ser quitada de tal forma que o dinheiro voltasse ao nada, de onde ele surgiu?
É claro, qualquer pessoa que tenha feito um empréstimo deve pagá-lo, geralmente com juros e juros compostos adicionais. Mas isso realmente quita a dívida, ou seja, “neutraliza” o dinheiro que foi criado do nada? Isso fecha o ciclo? De que forma exatamente lidamos com essa questão em nosso sistema econômico atual?
Como artista, sei que novas formas só podem surgir quando as antigas são destruídas. Em todo processo criativo, é necessário que algo que ja foi materializado seja destruido, ou em outras palavras, seja conduzido de volta ao caos, para que se possa criar algo novo. Então, como se dá essa terceira transformação aparentemente necessária no caso do dinheiro depois que iniciou seu ciclo em forma de contrapartida débito-crédito, se transformou, em seguida, em dinheiro de troca e voltou agora a sua origem, onde foi criado do nada pelo banco inicialmente?
Parece que não encontramos uma solução satisfatória para essa questão central do dinheiro, no nível econômico-social, até o momento. Muito dinheiro é realmente mal usado e, desta maneira, “destruido” por guerras, especulações, qualquer forma de escassez criada artificialmente, tecnologia ambientalmente destrutiva, como, por exemplo, energia nuclear, viagens à Lua e Marte, etc. Mas, a aparentemente necessária “neutralização” do dinheiro, uma vez voltado a sua origem de circulação, também não é possível de forma produtiva em vez de destrutiva? Sempre temos que conduzir nossos meios de subsistência para o caos e a destruição?
David Graeber, em seu magnífico livro Dívida: Os primeiros 5 mil anos também investigou essa pergunta e chega a insights surpreendentes e fundamentais.
Sua resposta também é: Não. Porque ainda podemos presentear em forma de doação! Graeber refere-se, por exemplo neste contexto, ao costume sagrado na fé judaica de anular todas as dívidas em uma sociedade a cada sete anos (ano sabático). Mas não é assim que toda forma de doação privada ou, sobretudo, “institucionalizada” (se os impostos não forem obrigatórios mas, de certa maneira, doações voluntários…) representa uma espécie de ato de neutralização? Um ato em que, por um lado, o dinheiro doado não obriga o benficiado por nada, ele não precisa devolver este dinheiro e, desta maneira, o dinheiro perde sua relação coercitiva original que tinha como dívida e fica “neutralizado”. Por outro lado, o benficiado recebe, através da doação, a total liberdade de criar algo novo.
Assim como todo banqueiro, no entanto, não possui o dinheiro do empréstimo que ele cria e distribui, mas apenas o gerencia de maneira fiduciária, eu também, com a Mala de Crédito, só podia transmitir aquilo que eu não possuía, mas que foi doado para mim de alguma forma por outras pessoas: Sem receber algo de forma voluntária e livre, não se consegue repassar nas mesmas condições; sem fomento livre, não se consegue criar de forma livre; sem confiança no potencial de um “Nada positivo”, não se consegue se desenvolver em liberdade…
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Consequentemente, muitas pessoas tiveram uma participação direta no sucesso deste projeto com doações tangíveis e intangíveis. Portanto, eu gostaria de lhes agradecer em uma página somente para isso!